Esculturas eternizam alagoanos ilustres nas ruas de Maceió

Segundo o dicionário Aurélio, homenagem quer dizer “ato de cortesia, de consideração, de galanteria”. E foi justamente isso que aconteceu em Maceió quando suas principais vias receberam as famosas esculturas em bronze que reproduzem, com riqueza de detalhes, a imagem de admiráveis personalidades alagoanas, a exemplo do próprio lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, além da renomada psiquiatra Nise da Silveira, do ator Paulo Gracindo e dos escritores Graciliano Ramos e Ledo Ivo. 

Os monumentos, que têm a assinatura do artista plástico mineiro Léo Santana, transferem a seus visitantes um pouco do que cada figura era e representava. Ícones reconhecidos dentro e fora do país que inovaram e deixaram um importante legado que reconfigurou todo o contexto em que viviam.


Aurélio de muitos verbetes

Descrito pelos amigos como um excelente ser humano, Aurélio Buarque de Holanda era um pesquisador de palavras. Buscou transcrever a forma exata como a linguagem era interpretada pelos que a utilizavam e ganhou destaque pela sua participação lexicográfica ao criar um dos mais famosos e competentes dicionários brasileiros, conferindo à obra o seu próprio nome. 

Nascido em Passo de Camaragibe, colecionou profissões. Atuou como filólogo, escritor,  professor,tradutor, ensaísta e crítico literário. Mas foi a língua portuguesa quem recebeu a mais importante herança deixada pelo ícone.

Eduardo Sampaio, professor de Língua Portuguesa, e Aurélio Buarque de Holanda , na orla da Ponta Verde. Foto: Pei Fon/ Secom Maceió

O professor de português Eduardo Sampaio representa bem a classe e frisa que Aurélio é sempre muito procurado em todas as instituições de ensino. “O conselho: ‘procura no Aurélio’ é recorrente nas salas de aula”, conta o mestre em Linguística. Para Eduardo, a trajetória do dicionarista se contrapõe a de Jesus Cristo que é descrito na Bíblia como o “verbo que se fez carne”. “No caso de Aurélio, foi o contrário, pois a carne se fez verbo e virou livro – o importante dicionário Aurélio”, completa o professor.


O velho Graça de Quebrangulo

Também amante das palavras, Graciliano Ramos é um dos maiores expoentes da literatura brasileira. Sua trajetória conta com a criação de clássicos como Vidas Secas, Angústia,Memórias do Cárcere, Caetés, São Bernardo e Infância – obras que viraram referência para o meio literário e migraram, inclusive, para o cinema brasileiro.

A escultura traz Graciliano Ramos caminhando entre os coqueiros da Praia de Pajuçara. Foto: Pei Fon/ Secom Maceió

Ao longo da vida, o velho Graça – assim chamado entre os amigos- dividiu seu amor pela escrita com outros ofícios. Atuou no comércio, deu aulas de português, trabalhou em jornais, além de ter desempenhado algumas funções políticas como a de prefeito de Palmeira dos Índios e diretor da imprensa oficial do Estado.

Apesar do regionalismo estampado em suas obras, muitos críticos literários apontam sua escrita como universal. Temas como o homem sofredor e a angústia humana foram algumas das inspirações para o intelectual. 


De onde Maceió nunca saiu

Em sua mão, o escultor Léo Santana escolheu colocar um livro. Nada mais apropriado para retratar a maior paixão do eclético poeta, romancista, jornalista, tradutor, ensaísta e crítico literário Lêdo Ivo. Um prodígio que por volta dos 16 anos encontrou sua vocação para as letras e foi, por mais de seis décadas, dedicado à produção escrita.

“E fizeram de mim um reiterado consumidor de tudo quanto era relato, enredo e intriga”. Ledo Ivo, em Confissões de um Poeta. Foto:Marco Antônio/SECOM Maceió

Dono de um humor sarcástico, o ocupante da cadeira número 10 da Academia Brasileira de Letras trazia uma roupa poética a assuntos profundos, a maioria deles banhados pelas águas de Maceió- lugar onde nasceu, mas que deixou bem jovem. O farol da ponta verde, os armazéns de açúcar, o bairro de Jaraguá e muito do que se lê nas linhas do poeta vem das memórias que Lêdo cultivava sobre as ruas da capital alagoana.

“Emigrei, é certo, mas carreguei comigo a minha paisagem – uma paisagem que, hoje, só a mim pertence, entranhada no meu universo pessoal, vagas de um mar que apenas eu escuto, estrelas que, semelhantes a insetos, vêm pousar no meu papel em branco no instante preciso em que a noite cai” – Ledo Ivo, em Confissões de um Poeta.


Uma Nise que abraçou a loucura

Abraçar aquela que tanto abraçou, ensinou e revolucionou. A ideia de colocar um ícone como Nise da Silveira sentada no Corredor Vera Arruda, em Mangabeiras, trouxe para um dos pontos mais movimentados de Maceió a história da maceioense que ingressou aos 16 anos no curso de medicina, na Bahia, e foi a única mulher a se formar numa turma de 157 homens. Optou pela psiquiatria como ramo de atuação, construindo uma das trajetórias mais revolucionárias no campo do atendimento humanizado.

O médico residente em Psiquiatria Rodrigo Rebouças conta que hoje existem inúmeras instituições dentro e fora do país que reproduzem os trabalhos da humanista em seus pacientes. Para ele, a contribuição de Nise traz reflexos muito positivos à área. “ Entre as grandes ideias de Nise estava a de introduzir terapias ocupacionais como pintura e modelagem no tratamento do adoecimento mental e a partir daí analisar cada paciente não só pelo que ele fala, mas também pelo que ele expressa em sua arte. Esse olhar humano é a base da Psiquiatria nos dias de hoje”, afirma Rodrigo.

“Ela queria que o paciente fosse incluído na sociedade e não exilado em hospitais”, conta o residente. Foto: Pei Fon/ Secom Maceió

Entre os feitos da médica estão a introdução do método yunguiano no atendimento psiquiátrico; a criação do Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952,  que reunia as obras criadas pelos seus pacientes psiquiátricos e a fundação da Casa das Palmeiras- clínica em que os egressos de outras instituições de psiquiatria realizavam atividades em regime de externato.


A teledramaturgia de Paulo Gracindo

Apesar de se considerar alagoano, o ator Paulo Gracindo nasceu no Rio de Janeiro e foi radicado em Maceió ainda bebê, permanecendo até os 20 anos de idade. Fez história no rádio, TV, teatro e cinema com personagens marcantes como Betinho, em Rainha da Sucata; Padre Hipólito, em Roque Santero e o prefeito Odorico Paraguaçu, na novela O Bem Amado – tipos que, em sua maioria, carregam consigo características bem alagoanas.

A escultura do ilustre está instalada na orla da Pajuçara. Foto: Pei Fon/ Secom Maceió

Atriz há 25 anos, a maceioense Ivana Iza considera muito dignas todas as homenagens ao ator. Para ela “Paulo Gracindo interpretou personagens insuperáveis e,  por muito tempo, foi presença constante em nossas casas”. Ivana acredita que “ter uma escultura do ator instalada nas ruas de Maceió ajuda a eternizar a contribuição desse ator carioca com alma nordestina, além de representar muito para a arte em geral”. 

A cidade ainda pretende ter em suas ruas muitos outros filhos ilustres. O próximo talento a receber reconhecimento por sua trajetória será o autor de ampla obra poética Jorge de Lima. Por meio da Fundação de Ação Cultural (FMAC), a prefeitura de Maceió pretende instalar a escultura do escritor na Praça Sinimbú, onde está localizada a casa na qual o alagoano morou.


Polyanna Monteiro

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